HISTÓRIAS DO TARÔ
POR QUEM OS DEUSES CHORAM
(trecho do conto baseado no Arcano Maior N.º 1 – O Mago)
de William Goldoni
SUA AFLIÇÃO ATINGIU O AUGE! Era seu primeiro emprego, não podia deixar ninguém perceber o quanto estava com medo.
Chorando, deixou o escritório e atingiu a rua. Entrou na primeira porta aberta que encontrou. Na entrada do edifício havia um cartaz do evento que acontecia ali, mas ele nem leu. Era horário de expediente e não encontraria ninguém do trabalho.
Demorou para se recompor e perceber que estava na “Exposição de Arte Greco-Romana”, com obras originais, vindas da Europa.
Estranhamente, o salão com estátuas, bustos e fragmentos de magníficas esculturas em mármore branco estava vazio, na penumbra.
— Pelo menos posso pensar um pouco sem ser incomodado! — disse para si mesmo, enquanto sua atenção começava a ser roubada pelas obras. Não querendo voltar ao trabalho nem chegar em casa antes da hora, preferiu gastar o resto da tarde ali.
Parou diante da última escultura que lhe interessou: uma belíssima estátua de uma mulher de quase dois metros de altura. O rosto tinha talhe perfeito. O antebraço esquerdo para frente, segurando parte da túnica cheia de pregas. O braço direito, quebrado.
“Deusa Themis. Mármore. Século III a.C. Origem: Museu Nacional de Arqueologia de Atenas”, leu na plaqueta de inox presa ao pedestal.
Voltou-lhe à mente o drama profissional que o afligia. Uma ruga de contrariedade brotou entre as sobrancelhas.
— Por que essas coisas aparecem na vida da gente? — falou para a estátua — Você, mais que qualquer outra pessoa, deveria me ajudar.
Após o sobressalto emotivo, buscou instintivamente a segurança de seu jeito costumeiro de ser. Agora queria voltar à sua rotina normal. Rumou para a saída.
Nessa hora, um barulho alto, como o de pedra trincando, pareceu vir do fundo do salão.
O jovem olhou para trás, meio alarmado, procurando quem estaria golpeando as esculturas.
— Todo caminho escolhido é sem volta! A causa pode ser escolhida; a conseqüência, dessa não há como escapar!
Petrificado, o jovem não acreditou no que viu: a estátua de Themis descida do pedestal, iluminada como se estivesse sob o sol. Estava perfeita e na mão direita segurava uma espada. Com um gracioso gesto, prendeu-a nos cordões da cintura que funcionavam como cinto.
Hipnotizado pela beleza sobre-humana da mulher, levou alguns segundos para conseguir articular as palavras.
— Quem é você?
